
Em Nova Iorque, representantes de Portugal reforçaram o papel do país na inclusão social e na cooperação internacional durante a 19ª. Conferência anual dos Estados Partes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, Cosp19.
Em entrevista à ONU News, a secretária de Estado da Ação Social e da Inclusão, Clara Marques Mendes, partilhou avanços legislativos de Portugal, desafios do mercado de trabalho e o relançamento de parcerias globais no evento encerrado neste 12 de junho.
Desafio do emprego: cruzar a oferta com a procura
A representante explicou que a inclusão em Portugal não deixa ninguém para trás, incluindo aqueles que chegam de fora. No âmbito da imigração, a secretária Clara Mendes Marques destacou que o ecossistema de apoio social português está preparado para responder às especificidades de cada cidadão.
“O nosso apoio, naturalmente, que é diferenciado e é adaptado, se houver uma pessoa com deficiência e que tenha uma oportunidade de emprego, em Portugal, tem todas as condições para sonhar em Portugal, até porque nós temos o apoio para adaptar. Até porque nós temos o apoio para adaptar, por exemplo, o posto de trabalho, apoios às empresas para adaptar o posto de trabalho. E, portanto, também há apoios às pessoas em termos de mobilidade, em termos do apoio social, portanto, da prestação e, naturalmente, que em termos de acolhimento, há um acolhimento consoante às necessidades das pessoas”.
Apesar dos avanços significativos e da existência de cotas de emprego obrigatórias para pessoas com deficiência, Clara Marques Mendes sublinhou que o mercado de trabalho ainda enfrenta barreiras estruturais.
O período de adaptação da lei já terminou, mas muitas empresas, em Portugal, ainda reportam dificuldades em preencher as vagas disponíveis.
Qualificações e candidatos
O diagnóstico da secretária de Estado é de que é urgente um ajuste mais eficaz entre as qualificações pedidas e os candidatos disponíveis, intensificando as ações integradas no plano de ação nacional para disparar os índices de empregabilidade.
À margem das sessões na ONU, a comitiva portuguesa desenvolveu uma intensa atividade diplomática bilateral. Portugal aproveitou para reavaliar e dinamizar um memorando de cooperação assinado com o Brasil, em 2023, que se encontrava estagnado, estendendo pontes semelhantes a nações como Timor-Leste, o país de língua portuguesa no sudeste da Ásia.
Portugal tem cerca de 1,2 milhão de pessoas com deficiência e uma população idosa em crescimento
A secretária de Estado mencionou contactos com Quênia, Turquia, e a manutenção da parceria contínua com agências como o Fundo da ONU para a Infância, Unicef, e a Organização para Educação, Ciência e Cultura, Unesco.
Maiores consensos extraídos
Para a representante portuguesa, a cooperação internacional é uma via de dois sentidos altamente enriquecedora.
“Agora, naturalmente, que nós podemos, em termos de cooperação, estar, provavelmente, a aprofundar mais as necessidades de um e de outro país, quando estamos a fazer esse trabalho de cooperação, para melhorarmos alguma fragilidade que se identifique, mas temos sentido da parte da nossa legislação, e não só da nossa legislação, mas também da prática que temos dessa mesma legislação, que tenha havido um bom acolhimento de quem nos procura, independentemente da sua condição.”
Um dos maiores consensos extraídos deste fórum global foi de que qualquer política pública eficaz tem de ser desenhada com os beneficiários e nunca apenas para eles.
Clara Marques Mendes enfatizou o alinhamento total de Portugal com a visão de envolver ativamente as pessoas com deficiência e as suas famílias na construção das respostas sociais.
Futuro da Inclusão e desafio demográfico
Celebrando os 20 anos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, Portugal reafirmou a sua total transparência e espírito de partilha com a comunidade internacional, nomeadamente com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp.
“Nós temos com os países da Cplp, que temos a cooperação aqui, neste evento onde estamos a comemorar, celebrar 20 anos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Demos naturalmente enfoque a esta nossa abertura e total disponibilidade para trabalhar com todos, para darmos os contributos daquilo que nós estamos a conseguir ter efeitos e resultados positivos, porque naturalmente nós fazemos avaliações e monitorização das nossas medidas e dizer aquilo que está a correr bem, aquilo que está a correr menos bem e percebermos o que estão a fazer também os outros países e vai ser seguramente um trabalho muito interessante de cooperação que vamos fazer de futuro.”
Com cerca de 1,2 milhão de pessoas com deficiência e uma população idosa em crescimento, que traz novos desafios de perda de mobilidade e autonomia, Portugal assume que o caminho se faz monitorizando resultados.
*Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.




