Feliz MĂŞs da HistĂłria Negra.
Quero começar com amor.
Amor por aqueles que vieram antes de nĂłs.
Amor por aqueles que ainda estĂŁo encontrando seu caminho.
Amor em toda a diáspora, aos povos afrodescendentes em todas as nossas lĂnguas, culturas, ritmos e linhagens.
Que este mês nos mantenha em memória e em movimento. Que seja uma recusa ao apagamento em todas as suas formas. Que seja um novo compromisso de escolher a vida com intenção, repetidas vezes.
Janeiro foi pesado.
Para muitos de nós, chegou com a exaustão já presente em nossos corpos, com a dor que não havia resolvido, com a raiva que não tinha para onde ir, com o medo sobreposto à incerteza. O mundo parece barulhento, violento e implacável. Alguns dias, simplesmente superar parecia um ato de coragem.
E, no entanto, ainda estamos aqui.
As comunidades negras sempre souberam algo sobre como sobreviver em Ă©pocas difĂceis. Sobre continuar quando as condições sĂŁo hostis. Sobre nos encontrarmos quando o mundo insiste na fragmentação.
Esse conhecimento nĂŁo veio da teoria.
Veio da prática vivida.
A resistĂŞncia negra nunca pareceu apenas uma coisa.
Assumiu a forma de rebelião – recusa aberta.
De resistĂŞncia – ficar quando deverĂamos desaparecer.
De ressurgimento – retornar ao que foi enterrado, mas nunca desapareceu.
Da insurgência – construir poder onde não deveria existir.
E também assumiu a forma de re-existência.
A reexistência é mais silenciosa e profunda. É o que acontece quando as pessoas decidem viver de qualquer maneira. Amar de qualquer maneira. Para criar beleza, comunidade e significado em um mundo estruturado para apagá-los.
Reexistir Ă© cozinhar e cantar.
É organizar e descansar.
É o riso que recusa o desespero.
É a memória transportada no corpo.
É a recusa diária de deixar a vida ser reduzida apenas à sobrevivência.
Estamos aqui porque alguém sonhou.
Estou aqui hoje porque os meus antepassados ​​sonharam com um futuro que nunca veriam.
Eles imaginaram dignidade onde havia brutalidade.
Alegria onde houve apagamento.
Futuros onde a vida negra nĂŁo era apenas protegida, mas abundante.
Esse sonho nĂŁo foi ingĂŞnuo.
Foi revolucionário.
Entre Abya Yala e Ilha da TartarugaOs negros foram forçados a construir as bases do mundo moderno atravĂ©s de trabalho roubado e experiĂŞncia coagida. Escravizadas e exploradas, vigiadas e despossuĂdas, as comunidades negras geraram imensa riqueza e infra-estruturas para impĂ©rios coloniais, governos colonizadores, proprietários de plantações, financiadores e instituições do capitalismo racial, ao mesmo tempo que lhes eram sistematicamente negados os benefĂcios daquilo que construĂmos.
Como Exterminar todos os brutos de Raoul Pecks deixa dolorosamente claro que o mundo moderno nĂŁo surgiu apenas atravĂ©s da inovação, mas atravĂ©s da escravização, da desapropriação e da violĂŞncia colonial. A prĂłpria modernidade foi construĂda atravĂ©s da extração de terra, de trabalho, de vida.
Devemos manter esta verdade ao lado de outra: estas sĂŁo terras indĂgenas. As Nações IndĂgenas sempre foram e continuam sendo soberanas. Nomear a contribuição negra nĂŁo apaga a presença indĂgena; exige a recusa da mentira colonial que coloca as nossas lutas umas contra as outras.
O mundo construĂdo aqui baseia-se em violĂŞncias interligadas: expropriação indĂgena e escravização anti-negra. A libertação pede-nos que nĂŁo compitamos pelo mal, mas que pratiquemos o relacionamento, a responsabilização e a recusa partilhada da dominação colonial.
Libertação não é assimilação.
Os pensadores, organizadores e anciãos negros há muito nos lembram que a libertação não vem da assimilação em sistemas violentos. Ela vem de redesenhar a vida em nossos próprios termos – no relacionamento, na coletividade, no amor radical.
Vem da recusa em separar a cultura da polĂtica.
Alegria da luta.
Terra das pessoas.
É aqui que vive o Afrofuturismo, não como fantasia, mas como prática.
O afrofuturismo nos convida a imaginar futuros onde a vida negra nĂŁo seja organizada em torno de crise, escassez ou sacrifĂcio, mas em torno de cuidado, criatividade, descanso e pertencimento. Futuros de onde o planeta nĂŁo Ă© extraĂdo, mas cuidado. Onde as comunidades tĂŞm o que precisam para florescer. Onde a alegria nĂŁo Ă© adiada para “depois” da justiça, mas faz parte de como chegar lá.
O que isso significa para o nosso trabalho
No Greenpeace, entendemos que a justiça ambiental não pode existir sem justiça racial. Os futuros pelos quais trabalhamos devem ser aqueles em que as comunidades negras não sejam deixadas para trás – e estejam ativamente moldando o que vem a seguir.
Neste MĂŞs da HistĂłria Negra, convido-nos para algo simples e poderoso.
Começamos com uma verdade fundamental: um futuro libertado Ă© aquele em que a vida negra nĂŁo está apenas protegida, mas tambĂ©m capaz de florescer. Quando a vida negra Ă© centrada, diferentes questões se tornam possĂveis.
Perguntas como:
- Como as pessoas organizam os cuidados e respondem aos danos?
- O que conta como conhecimento e quem é responsável por isso?
- Como nos relacionamos com a terra, o tempo, a água e toda a vida que nos rodeia?
- O que não sobreviveu e por que foi necessário deixar para lá?
Estas nĂŁo sĂŁo perguntas para responder perfeitamente. SĂŁo convites para ouvir, para lembrar, para imaginar diferente.
Um convite de encerramento
Se você se sente emocionado, convido você a compartilhar um sonho, uma reflexão ou uma história. Pode ser algo que você está segurando, algo que você espera, algo que deseja proteger ou construir.
Talvez não consigamos responder a todas as mensagens, mas as leremos com atenção.
Porque a decolonialidade nĂŁo Ă© um ponto final.
É uma prática contĂnua de se desligar do mal, de refazer relacionamentos e de lembrar que a vida sempre excedeu os termos que lhe foram impostos.
Ainda estamos aqui porque alguém se atreveu a imaginar o contrário.
Agora Ă© a nossa vez.
PS Se vocĂŞ quiser algumas coisas para assistir e ler nesta temporada, aqui estĂŁo algumas ofertas:
- Exterminar Todos os Brutos (documentário) — um cálculo decolonial de como a “modernidade” foi construĂda atravĂ©s da colonização, escravização e extração.
- Pecadores (filme) – uma histĂłria negra inovadora que se move atravĂ©s da histĂłria, do terror e do desejo.
- Abbott Elementary (sĂ©rie de TV) – alegre, afiado e cheio de cuidado no dia a dia.
- Octavia E. Butler (livros) — Sabedoria afrofuturista para sobreviver, transformar e imaginar o contrário.
- Um deles dias (filme) – amizade, caos e ternura sob a pressĂŁo do capitalismo tardio.
- Inseguro (sĂ©rie de TV) – Vida negra confusa, engraçada e Ăntima com tanto coração.
Esta postagem do blog foi escrita por Jessica da Silva, especialista em JEDIS e integridade do Greenpeace Canadá.



