Este relatório revela como as lacunas no sistema de licenças de mineração do Brasil permitem que o ouro extraído ilegalmente entre nos mercados globais, alimentando a destruição ambiental e aprofundando a crise enfrentada pelos povos indígenas na Amazônia.
OTTAWA – Numa altura em que os mercados globais são cada vez mais moldados pela instabilidade e pelas tensões geopolíticas, o ouro ressurgiu como símbolo de um investimento seguro. Contudo, novas evidências sugerem que esta sensação de segurança pode ser profundamente enganadora. Um novo relatório do Greenpeace Brasil publicado hoje, Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma frauderevela como brechas no sistema de mineração brasileiro permitem que ouro extraído ilegalmente, incluindo ouro extraído de Territórios Indígenas e Unidades de Conservação, entre nos mercados formais disfarçada de produção legal.
Através de grandes centros comerciais, de refinação e de consumo, este ouro chega a destinos como o Canadá, onde segue um caminho para se integrar nas cadeias de abastecimento globais. Uma vez que este ouro é absorvido pelo mercado, torna-se extremamente difícil rastreá-lo. Em 2024, 61.567 toneladas de ouro no valor de mais de 3,9 mil milhões de dólares foram exportados do Brasil para mercados globais em todo o mundo, destacando a vasta escala e o alcance intercontinental deste comércio. Das quase 62 mil toneladas exportadas pelo Brasil, 29,4 toneladas no valor de quase US$ 1,83 bilhão foram exportadas para o Canadá, tornando o Canadá o principal destino de exportação do ouro brasileiro extraído ilegalmente.
Este novo relatório investigativo, Lavagem de Ouro na Amazônia, segue Ouro Tóxicoum relatório investigativo de 2025 do Greenpeace Brasil e do Greenpeace Alemanha, que expôs como o ouro ilegal da Amazônia se move através de cadeias de abastecimento internacionais opacas antes de chegar aos principais centros de refino e comércio ligados ao Canadá e à Europa.
O Lavagem de ouro na Amazônia O relatório identifica um dos principais mecanismos que permite este processo de branqueamento. No centro do esquema está a Licença de Garimpo (Permissão de Lavra Garimpeira – PLG). O PLG, criado há mais de três décadas para regular a mineração artesanal, tornaram-se uma das principais ferramentas de lavagem do ouro extraído ilegalmente na Amazônia. Devido ao fato de não serem exigidos levantamentos minerais prévios e de os próprios detentores de licenças declararem o potencial produtivo das áreas de mineração, não existem parâmetros técnicos confiáveis para avaliar o real potencial produtivo das áreas concedidas no âmbito dos PLGs.
Danicley Aguiar, Coordenador da Campanha dos Povos Indígenas do Greenpeace Brasil, disse:
“Estamos falando de um esquema de lavagem de ouro que, há décadas, utiliza um instrumento legal para inserir ouro roubado de Territórios Indígenas e Unidades de Conservação da Amazônia nos mercados nacionais e internacionais. Quem compra ouro da Amazônia pode e deve pressionar pela adoção de medidas capazes de prevenir a lavagem de ouro, reafirmando um compromisso global com os direitos humanos e a proteção ambiental.”
O relatório analisou 187 cortiços minerários entre 2018 e março de 2026 e identificou 98 Licenças de Garimpo (PLGs) com irregularidades. Em conjunto, estas licenças representaram as vendas declaradas de 25,3 toneladas de ouro durante o período analisado, o que, aos actuais valores de mercado, valeria cerca de 3,5 mil milhões de dólares.
Dos 98 PLGs com irregularidades identificados pelo Greenpeace Brasil, 94% desses PLGs foram classificados como “Minas de Garimpo Fantasma” ou “Operações de Garimpo em Escala Industrial”.
- Minas do Garimpo Fantasma: PLGs onde há pouca ou nenhuma evidência de actividade mineira compatível com os volumes de produção declarados. De acordo com o relatório, estas licenças podem funcionar como um registo documental utilizado para introduzir ouro extraído de locais não autorizados em cadeias de abastecimento formais.
- Operações Garimpo em Escala Industrial: Acordos em que múltiplas licenças de pequena escala são exploradas como uma única operação mineira integrada, permitindo aos operadores evitar requisitos e controlos mais rigorosos normalmente aplicados a projectos mineiros industriais.
As consequências ambientais e sociais destas lacunas e dos fracos sistemas de rastreabilidade são graves. Entre 1985 e 2022, a área impactada pela mineração no Brasil aumentou 1.100%, com 91% dessa expansão concentrada na Amazônia. Até setembro de 2025, a mineração ilegal de ouro já havia consumido quase 100 mil hectares de floresta em áreas protegidas da Amazônia.
Ao permitir que o ouro extraído ilegalmente entre nos mercados formais disfarçado de produção legal, o modelo atual alimenta o desmatamento, a contaminação dos rios por mercúrio e a expansão da mineração em áreas protegidas e Territórios Indígenas em toda a Amazônia.
Alessandra Korap Munduruku, uma líder indígena Munduruku, disse:
“Queremos viver em uma Amazônia viva e em pé, com nossos direitos protegidos, com rios limpos, com peixes livres de contaminação e sem ameaça constante de invasões.”
FIM
Nota aos editores:
O novo relatório de 2026, Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude pelo Greenpeace Brasil, está disponível aqui.
As fotos estão disponíveis no Biblioteca de mídia do Greenpeace.
Para mais informações, entre em contato:
Sarah Micho, ativista de comunicações, Greenpeace Canadá (e-mail protegido)+1 647 428 0603




