
O Projeto de Lei 2632/26, da deputada Soraya Santos (PL-RJ), cria a PolĂtica Nacional Integrada de Autonomia EconĂ´mica, Empreendedorismo e Inserção Produtiva de Mulheres, denominada “Mulheres em Movimento”.
O objetivo é promover a independência financeira das mulheres por meio de qualificação profissional, acesso a crédito e fortalecimento de empreendimentos liderados por elas.
A proposta está em análise na Câmara dos Deputados.
Beneficiárias
A polĂtica atenderá mulheres com faturamento anual de atĂ© R$ 360 mil, limite atual das microempresas. Entre as beneficiárias estĂŁo:
- mulheres em processo de inserção produtiva;
- agricultoras familiares e produtoras rurais;
- cooperativas compostas por pelo menos 4/5 de mulheres;
- microempreendedoras individuais (MEIs);
- empresárias;
- microempresas controladas por mulheres; e
- profissionais liberais.
TerĂŁo prioridade:
- chefes de famĂlia de baixa renda;
- mulheres em situação de violência doméstica e familiar;
- desempregadas há mais de 12 meses;
- mulheres com 50 anos ou mais;
- mulheres em situação de vulnerabilidade social e econômica; e
- mulheres com filhos ou dependentes com deficiĂŞncia.
Desafios
Segundo Soraya Santos, a desigualdade econômica entre homens e mulheres resulta de múltiplos obstáculos, como dificuldade de acesso ao crédito, sobrecarga de cuidados, baixa qualificação e barreiras para entrar no mercado.
“Em vez de dispersar iniciativas em ações fragmentadas, a proposição reĂşne instrumentos de apoio financeiro transitĂłrio, capacitação, orientação tĂ©cnica, crĂ©dito, garantias, cooperativismo, acesso a mercados e inserção produtiva em um mesmo marco normativo”, afirmou.
Como vai funcionar
A UniĂŁo coordenará a polĂtica, que será executada de forma descentralizada, com participação de estados e municĂpios.
O Serviço Brasileiro de Apoio Ă s Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) será um dos principais parceiros na implementação da polĂtica.
A implementação da polĂtica será feita por instrumentos como:
- apoio financeiro transitório para superação da vulnerabilidade;
- capacitação profissional e orientação técnica; e
- microcrédito orientado e outras linhas de crédito.
Incentivo transitĂłrio
Um dos instrumentos centrais da polĂtica Ă© o Incentivo de Transição AutĂ´noma, benefĂcio financeiro de atĂ© R$ 3.242 por beneficiária.
O incentivo será destinado a mulheres sem CNPJ ativo ou com faturamento inferior a 10% do limite da receita anual do MEI, atualmente R$ 8,1 mil.
O recurso poderá ser usado para compra de equipamentos e insumos necessários para começar uma atividade produtiva.
O Sebrae ficará responsável pelo pagamento do benefĂcio e poderá destinar recursos diretamente Ă s beneficiárias.
Esse benefĂcio nĂŁo será computado como fonte de renda para programas sociais do governo federal nem para o BenefĂcio de Prestação Continuada (BPC).
Em contrapartida, a beneficiária poderá devolver parte dos recursos ou participar de ações de multiplicação de conhecimento, como capacitar ou orientar outras participantes.
Sistema financeiro
O projeto também estabelece obrigações diretas para o sistema financeiro. Assim, o Poder Executivo deverá fixar diretrizes para ampliar o acesso das beneficiárias ao crédito nas instituições financeiras federais, com condições favorecidas.
Os programas federais de crédito deverão ainda prever metas de destinação de recursos às beneficiárias, com atenção às desigualdades raciais.
Nos programas de crédito incentivado com recursos da União ou garantias federais, ao menos 50% do total de cada instituição participante deverá ser destinado a mulheres, cooperativas majoritariamente femininas ou empresas controladas por mulheres.
O Fundo de Aval Ă s Micro e Pequenas Empresas (Fampe) poderá garantir atĂ© 100% do valor financiado em operações contratadas por beneficiárias da polĂtica.
O texto também classifica como prática abusiva e discriminatória a recusa ou imposição de condições mais gravosas de crédito motivada pelo sexo da solicitante.
Instituições financeiras infratoras estarão sujeitas a sanções administrativas, civis e penais.
Eixos de atuação
A polĂtica se organiza em trĂŞs eixos principais:
- rural – apoio Ă mulher empreendedora no campo, com acesso a tecnologia, crĂ©dito rural e capacitação, articulado ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf);
- internacionalização – qualificação e apoio a empreendimentos liderados por mulheres para exportação de produtos e serviços;
- proteção integral – atenção especĂfica a mulheres em situação de violĂŞncia domĂ©stica, com articulação entre acolhimento, apoio psicossocial, jurĂdico e inserção produtiva.
Beneficiárias do BPC
O projeto prevê ainda proteção para mulheres beneficiárias do BPC.
Durante atĂ© trĂŞs anos, a renda obtida por meio da polĂtica nĂŁo será computada no cálculo da renda familiar.
A mesma regra valerá para cuidadoras de pessoas idosas ou com deficiência, que recebem o BPC.
Outas mudanças
O projeto altera ainda uma sĂ©rie de leis federais para adaptar programas existentes Ă nova polĂtica.
No Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), o limite de empréstimo poderá chegar a 70% da receita bruta anual, com prazo de pagamento de 96 meses e juros limitados a 90% da taxa padrão do programa.
A proposta tambĂ©m altera a Lei de Licitações e Contratos para permitir que editais de obras e serviços de engenharia exijam percentual mĂnimo de contratação de mĂŁo de obra feminina.
No Programa Acredita no Primeiro Passo, as beneficiárias terão acesso a condições favorecidas, como juros reduzidos e limite maior de inadimplência.
Fiscalização
O Tribunal de Contas da UniĂŁo (TCU) deverá apresentar ao Congresso Nacional, a cada dois anos, uma avaliação sobre a implementação e os resultados da polĂtica.
Conforme levantamento do Sebrae, cerca de 40% das empresas criadas no Brasil encerram as atividades antes de completar cinco anos. Entre os pequenos negĂłcios, a maior taxa de mortalidade Ă© a dos microempreendedores individuais (29%), seguida pelas microempresas (21,6%) e pelas empresas de pequeno porte (17%).
“Esse ciclo de vida curto das empresas brasileiras Ă© particularmente desafiador para empreendimentos de menor porte, pois enfrentam maior exposição Ă concorrĂŞncia, restrições de capital de giro, fragilidade gerencial e dificuldade de acesso a mercados”, afirmou Soraya Santos.
PrĂłximos passos
A proposta deve ser analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de PrevidĂŞncia, AssistĂŞncia Social, Infância, AdolescĂŞncia e FamĂlia; de IndĂşstria, ComĂ©rcio e Serviços; de Defesa dos Direitos da Mulher; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Como teve a urgência aprovada em junho, poderá ser votada diretamente no Plenário, sem passar antes pelas comissões da Câmara. Para virar lei, a proposta precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.




